quarta-feira, 5 de maio de 2010

James Joyce.

"Sim! Sim! Sim! Ele iria criar magnificentemente, com a liberdade e a força da sua alma, como o grande artífice cujo nome usava, uma coisa viva, nova, alada e bela, impalpável, imperecível. Nervosamente saiu a andar, abandonando o bloco de pedra pois não podia mais extinguir a chama no seu sangue. Sentia as faces em fogo e a garganta palpitando num cântico. Havia um ímpeto de marcha errante em seus pés que queimavam querendo partir para os confins da terra. - 'Vamos! Vamos!' - parecia gritar o seu coração. A noite iria se aprofundar por sobre o mar, a noite iria cair sobre os campos, a aurora iria romper diante do vagamundo, mostrando-lhe estranhos campos, colinas e faces. Onde? Olhou para as bandas do norte, na direção de Howth. O mar tinha descido abaixo da linha das algas marinhas lá nas bandas rasas do quebra-mar e já a maré, correndo, se afastava ao longo da praia lá adiante. Já agora, um grande banco oval, de areia, mostrava-se seco e morno por entre as pequenas ondas. Aqui e acolá, ilhas cálidas de areia brilhavam acima da maré baixa e em torno das ilhotas e em redor dos bancos compridos e por entre as correntes rasas da praia, havia figuras recortadas em penumbra, chapinhando, e se afundando. Em poucos minutos estava ele descalço, com as meias dobradas dentro dos bolsos e os sapatos de lona pendendo dos ombros pelos cordões amarrados; e, agitando uma vereda roída pelo sal do mar, que apanhou da vasa que fluía por entre rochedos, pulou a rampa do quebra-mar. Vinha pela praia uma onda comprida; e como ele chapinhasse vagarosamente por ela acima, seguindo-a, admirou-se da porção de sargaços que o mar carregava. Sargaços cor de esmeralda, negros e vermelhos moviam-se debaixo da corrente, mexendo e revirando-se. A água da onda estava escura de tantos despojos e refletia as nuvens que vogavam tão alto. As nuvens vogavam por cima dele, silenciosamente! E, silenciosamente, o emaranhado do mar ia vogando por debaixo dele; e o ar quente e cinzento estava parado; uma vida nova e selvagem cantava-lhe nas veias. Onde estava, agora, a sua infância? Onde estava a alma que recuara suspensa do seu destino, para avaliar sozinha a vergonha de suas feridas e para em sua morada de sordidez e de subterfúgio governar por entre velhas mortalhas e grinaldas que murchavam ao menor contato? Ou onde estava ele? Ele estava longe de tudo e de todos, sozinho. Ele estava desligado de tudo, feliz, rente ao coração selvagem da vida. Estava sozinho, e era jovem, cheio de vontade, e tinha um coração selvagem; estava sozinho no meio dum ermo de ar bravio, entre águas salobras, entre a colheita marítima e conchas, entre emaranhados e redemoinhos, entre claridades embaraçadas de cinzento, entre figuras de crianças e de raparigas vestidas de alegria, e de luz, entre vozes infantis e joviais que enchiam o ar. Uma rapariga apareceu diante dele no meio da correnteza; sozinha e quieta, contemplando o mar. Era como se magicamente tivesse sido transformada na semelhança mesma duma estranha e linda ave marinha. Suas longas pernas, esguias e nuas, eram delicadas como as dum grou, e eram claras até onde a esmeralda da água do mar as rodeava, marcando a sua carne. As coxas, rijas, duma coloração suave como a do marfim, estavam à mostra quase até os quadris, onde as alvas franjas do seu calção eram como penugem de alva e macia pluma. A orla azul-claro do seu saiote ajustava-se garridamente em torno da sua cintura, abotoando-se atrás. O peito era o de um pássaro, macio e leve, tão leve e macio como o de um pombo de penas negras. Mas os seus cabelos compridos eram de menina; e de garota, tocada pelo deslumbramento duma beleza mortal, era a sua face. Ela estava sozinha e parada, contemplando o mar; e quando lhe sentiu a presença e o olhar maravilhado, volveu até ele os olhos numa calma aceitação do seu deslumbramento, sem pejo nem luxúria. Muito, muito tempo agüentou ela aquela contemplação; e depois, calmamente, afastou os olhos dele e os abaixou para a correnteza, graciosamente enrugando a água com o pé, para lá e para cá. O primeiro ruído leve da água assim agitada graciosamente quebrou o silêncio; um ruído vagaroso, leve, sussurrante, leve como os sinos do sono; para lá e para cá, para lá e para cá; um leve rubor tremulava em suas faces. - Deus do céu! - exclamou a alma de Stephen, numa explosão de alegria profana. Subitamente se afastou dela e seguiu através da praia. Todo o seu rosto estava afogueado; todo o seu corpo abrasado; os seus membros tremiam. Caminhou, caminhou, caminhou, a passos largos, até longe, por sobre a praia, cantando selvagemente para o mar, gritando para saudar o advento da vida que tinha gritado para ele. A imagem dela entrara na sua alma para sempre, e palavra alguma tinha quebrado o silêncio sagrado do seu arroubo. Os olhos dela o tinham chamado: e a sua alma saltara a tal apelo. Viver, errar, cair, triunfar, recriar a vida para além da vida! Um anjo selvagem lhe tinha aparecido, o anjo da mocidade e da beleza mortal, um mensageiro das cortes esplêndidas da vida, para escancarar diante dele, num instante de deslumbramento, os portões de todos os caminhos do erro e da glória. Seguir, seguir, sempre para diante, para diante! Parou de repente e auscultou o coração no silêncio. Até onde tinha ele andado? Que horas seriam? Não havia figura humana alguma perto; e nem som algum tinha nascido para ele no ar. Mas a maré estava prestes a voltar e já o dia estava declinando. Virou em direção à terra e correu rumo ao litoral, subindo a praia oblíqua, indiferente ao pedregulho cortante, descobrindo um esconderijo de areia ao centro dum círculo de dunas truncadas pelo vento; e aí se estirou para que a paz e o silêncio da noite pudessem acalmar o turbilhão do seu sangue. Sentia, bem por cima, a cúpula vasta e indiferente; e sentia a dinâmica dos corpos celestes; e a terra, debaixo dele, que tinha sido feita para ele, o havia tomado em seu seio. Fechou os olhos no langor do sono. As pálpebras tremiam-lhe como se estivessem sentindo o vasto movimento cíclico da terra e dos seus guardiões, tremiam como se sentissem a estranha luz dalgum mundo novo. A sua alma desfalecida dentro dum mundo novo, fantástico, ofuscante, incerto como um mundo submerso atravessado por formas e seres nevoentos. Um mundo, um clarão, ou uma flor? Tremeluzindo e tremendo, tremendo e desdobrando-se, uma luz a fulgurar ou flor a se abrir, tudo aquilo se dilatava numa interminável sucessão de si mesmo, fulgurando ora escarlate, ora se desdobrando e desmaiando até o rosa mais pálido, pétala após pétala, ou onda de luz após onda de luz, tudo aquilo enchia o céu todo com seus fulgores, cada fulgor mais intenso do que o outro."

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