domingo, 9 de maio de 2010

O beijo.



"Esse texto intitula-se 'O complexo de amor'. A palavra complexo deve ser entendida em seu sentido literal: complexus, aquilo que se tece em conjunto. O amor é algo único, como uma tapeçaria que é tecida com fios extremamente diversos, de origens diferentes. Por trás de um único e evidente 'eu te amo' há uma multiplicidade de componentes, e é justamente a associação destes componentes inteiramente diversos que faz a coerência do 'eu te amo'. Em uma extremidade há um componente físico e, pela palavra físico, entende-se o componente biológico, que não se reduz ao componente sexual, mas inclui o engajamento do ser corporal.

"No outro extremo, encontram-se os componentes mitológico e imaginário; incluo-me entre aqueles para quem o mito e o imaginário não representam uma simples superestrutura, e muito menos uma ilusão, mas, sim, uma profunda realidade humana. (...)

"Afirmar que o amor é um complexo requer um olhar poliocular. Os constituintes do amor precedem sua própria constituição. Neste sentido, pode-se constatar a origem do amor na vida animal. (...) Entre os mamíferos, há algo a acrescentar: o calor. São os denominados animais 'de sangue quente'. Há algo térmico em seus pêlos e sobretudo na relação fundamental: a criança, o recém-nascido mamífero, sai prematuramente para um mundo frio.

"Ele nasce na separação, mas, em seus primeiros tempos, vive numa união quente com a mãe. A união na separação ou a separação na união é justamente o que vai caracterizar o amor, não mais entre mãe e progenitura, mas entre homem e mulher. A relação afetiva, intensa, infantil com a mãe vai se metamorfosear, se prolongar, se estender entre os primatas e os humanos.

"A hominização conservou e desenvolveu no adulto humano a intensidade das afetividades infantil e juvenil. Os mamíferos podem exprimir essa afetividade através do olhar, da boca, da língua, do som. Tudo aquilo que vem da boca já se torna algo que fala do amor, antes mesmo de qualquer linguagem: a mãe que lambe o filho, o cão que lambe a mão; esses fatos já exprimem o que vai aparecer e desenvolver-se no mundo humano: o beijo. Aqui reside o enraizamento animal e mamífero do amor." (MORIN, Edgar. Amor, poesia, sabedoria. 1997.)

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